Um pouquinho de Brasil

Depois de ser esvaziado em 2009 − por conta do protesto da oposição pelo arquivamento dos processos contra o eterno José Sarney, o Conselho de Ética do Senado está de volta, agora com seu colegiado completo e com força total. Sim nobres contribuintes, vocês que arcam com as despesas de uma das casas legislativas mais dispendiosas do planeta (na inacreditável casa dos bilhões), agora terão uma equipe zelosa, atenta e sempre pronta a intervir para coibir os desmandos com o dinheiro público, correto? Faça-me rir …

O supertime do Conselho de Ética tem como uma de suas estrelas o nobre senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que foi eleito membro titular do órgão, mesmo já tendo respondido a cinco processos por quebra de decoro parlamentar. Só pra refrescar a memória, Calheiros também tem em seu longo histórico político, uma renúncia à presidência do Senado, em 2007. Mas por um motivo bastante nobre, é claro: escapar da cassação.

Gim Argello (PTB-DF), aquele mesmo que no ano passado renunciou à relatoria do Orçamento sob suspeita de direcionar verbas para institutos fantasmas, é o vice-presidente do honradíssimo Conselho. Como se só essa pequena mancha não bastasse, Argello é também investigado em inquérito no STF por suposto esquema de superfaturamento. 

Entre outros estimados senadores, completam o time Romero Jucá (PMDB-RR), que renunciou ao cargo de ministro da Previdência em 2005, sob suspeita de ilicitudes e Valdir Raupp (PMBD-RO), réu no STF e que carrega em seus ombros a acusação de desvios de recursos à época em que foi governador de Rondônia.

Para coroar esta belíssima equipe, só faltava mesmo o excelentíssimo senador João Alberto (PMBD-MA), indicado para a presidência do Conselho. Amigo pessoal de Calheiros e do atual presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), João Alberto tem em seu currículo político uma pérola digna de nota. Na década de 1990, quando governou o Estado do Maranhão, ele gentilmente doou um prédio histórico à família Sarney. Isso é que é amizade hein …

Assim, já dá pra imaginar o grau de independência do presidente do Conselho de Ética para com seu “cumpadre” Sarney, que diga-se de passagem, só no ano passado respondeu a 11 processos no Senado e só não foi defenestrado da política porque em 2009, as mãos santas de Lula o salvaram.   

Este é o Conselho de Ética do Senado Federal ! Sim, você não leu errado e nem está ficando doido! Estes são alguns dos paladinos que irão zelar pela ética política nacional. Como diria o saudoso compositor Ary Barroso : “Isto aqui ô … ô, é um pouquinho de Brasil iá iá(…)”.    

 

Sobre lobos e abutres

Ano novo, governo novo e o mesmíssimo PMDB de sempre. Símbolo maior que caracteriza o atraso político nacional, o oportunismo (na pior acepção do termo, por gentileza) e o fisiologismo em medidas extremas, o partido está de novo no âmago do Poder. Feito um vírus assassino prestes a contaminar um corpo impoluto, os peemedebistas voltam a espalhar seus tentáculos venenosos por todas as entranhas do governo e em tudo que puder render algum trocado no final do mês.

E assim começa o mandato da Presidente Dilma, com o partido de Michel Temer, Renan Calheiros e José Sarney novamente mamando nas gordas e rechonchudas tetas do governo. Não que isso seja novidade para a Presidente, já que a mesma conviveu pacificamente com os abutres que agora a rodeiam, durante todo o mandato de Lula, além de ter sido apoiada pela trupe peemedebista ao longo de sua campanha.

FUNASA. Mesmo com tão pouco tempo de governo, já é chegado o momento de Dilma demonstrar o quanto ela é refém da cobiça peemedebista. Segundo auditoria realizada pela Controladoria Geral da União (CGU), a Fundação Nacional da Saúde (FUNASA), órgão comandado pelo PMDB desde 2005 – e que é ligado ao Ministério da Saúde – apresenta uma série de irregularidades, leia-se, desvios, que chegam à módica quantia de meio bilhão de reais.

Desesperados e fazendo de tudo para não largar o osso, os peemedebistas brigam com foices, facas, serras elétricas e tudo o que estiver à mão, para não perderem o comando dessa grande mamata, digo, desse importante órgão chamado FUNASA. Com um orçamento anual aproximado de R$ 4,7 bilhões, canal direto com prefeituras de mais de 5 mil municípios e presença em todos os cantos do País, o órgão é a menina dos olhos do PMDB.

Será que depois desse escândalo de importância magnânima para a população e de repercussão midiática até então tímida, Dilma manterá o PMDB no comando da FUNASA? Infelizmente, se a imprensa não gritar, certamente, panos quentes (tão comuns às gestões públicas) serão requentados e lançados sobre o tema, até que tudo seja esquecido e adormeça sob o fétido cheiro do conluio partidário.   

Ainda há tempo de Dilma reagir …e o melhor, tempo para libertar o País de um monstro vampiresco, que se acostumou ao papel de sanguessuga do Poder.  

Gustavo L. de Sousa é jornalista, escritor e redator da página Fato Politico.

As velhas teorias do caos

Com a eleição de Dilma Rousseff, alguns setores da sociedade começam novamente a esboçar os sintomas da teoria do caos, a mesma que se abateu sobre o País, quando da eleição de Lula. “É agora que o País afunda de vez”, “Assim não dá, um analfabeto vai dirigir o Brasil”, “Brasileiro é um povo burro, só sendo idiota pra eleger o sapo barbudo”. Frases como essas – e milhares de outras menos civilizadas – eram ouvidas de forma estridente pelas ruas. Os profetas do caos vociferavam um futuro sombrio e modorrento para nossa pátria mãe desgovernada.

Passados oito anos da experiência Luís Inácio, muitas coisas realmente mudaram. A maioria delas, pra melhor, diga-se de passagem.  Os teóricos e apologistas do caos tiveram que refrear suas moribundas conspirações para encarar o que de bom foi feito pelo País. Antes que tucanos arredios apedrejem este singelo colunista, vale lembrar que se Lula fez um bom governo, muito, mas muito mesmo, deve-se a Fernando Henrique, que a cada eleição presidencial é enxovalhado por críticas, inclusive vindas do próprio tucanato (o famoso fogo amigo), algumas procedentes outras nem tanto, e a memória apaga a importância que FHC teve para nação. 

Calma lá! Antes que petistas aloprados digam que este crédulo blogueiro está puxando sardinha para o PSDB, de antemão deixo claro que acredito que Lula também tem uma relevância inestimável para o Brasil (apesar dos erros de condução, aproximação com o PMDB e a Sarneyzação de vários setores). 

Mas voltando a sra. Rousseff, ao contrário do que dizem os soturnos ideólogos do apocalipse, não acredito que nos próximos anos as coisas vão mudar pra pior. Como já era sabido por todos antes da eleição, a condução das políticas públicas - e da economia - deve continuar na mesma toada dos últimos anos, sob Palocci e ainda Mantega, e confesso, que embora não nutra profunda simpatia pela nossa presidente, surpreendeu-me positivamente a entrevista que ela concedeu a um jornal estrangeiro, posicionando-se veemente contra a política internacional gerida por Lula, principalmente no caso da omissão diplomática brasileira, ao acreditar que o apedrejamento de uma mulher iraniana seria um fato normal. 

Os anos que chegam é que escreverão a verdade, mas arrisco-me a dizer que com a estabilidade financeira conquistada e com a perspectiva de bons ventos internacionais chegando por essas bandas, as teorias do caos devem ser guardadas pra 2014 ou quem sabe, requentadas pra 2012, que está mais perto.

Nem mesmo o WikiLeaks vai fazer as coisas mudarem radicalmente. Parte da mídia, que escreve somente o que as classes A e B querem ouvir, continuará a destilar veneno sobre toda e qualquer boa obra do governo. E o PT insistirá em seus erros recentes e históricos, como rasgar suas bandeiras, proteger e promover apaniguados, e deixar o inacreditável PMDB tomar conta de parte do governo e do País. Mas no fim das contas, ainda assim, haverá mais motivos para rir do que para chorar.

Gustavo L. de Sousa é jornalista, escritor e redator da página Fato Politico

A reconstrução do impossível

A ocupação do conjunto de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro, ainda deve ser tema de acalorados debates por muito tempo. Se por um lado, alguns resultados efetivos da ação podem ser comemorados, como a apreensão de toneladas de drogas e de centenas de armamentos, por outro, dúvidas sobre a condução da operação são suscitadas a todo instante. Não se discute sua pertinência ou necessidade, mas sim as implicações às quais os moradores da região e todos os envolvidos, serão expostos.   

Se em mais de 30 anos de coexistência, a polícia carioca demonstrou ser conivente e corrupta para com o crime organizado, por que de uma hora pra outra esses mesmos policiais seriam os novos paladinos da justiça? Embora, as forças do Exército e da Polícia Federal também estejam dando suporte, o que, diga-se de passagem, dá um ar de integridade à ação, a grande verdade é que em alguns meses, a famigerada polícia fluminense estará sozinha à frente da Unidade de Polícia Pacificadora do complexo do Alemão.

Contraditório, o cenário torna-se também desconexo, pois um produto teoricamente bom (UPP) será entregue às mãos de uma força policial que carrega consigo, o estigma da desconfiança e da vinculação com o crime. Se em outras comunidades, essas unidades pacificadoras vêm logrando êxito (segundo o governo estadual do Rio de Janeiro), a prova final de sua competência deve ser posta em xeque justamente no Alemão, um dos berços do tráfico carioca. 

Mesmo que a vontade geral, inclusive da mídia, seja a de transformar à ocupação em um divisor de águas da gestão pública, não podemos nos esquecer que os milhões movimentados pelo tráfico já compraram e ainda podem comprar muitas fardas, e até mesmo, condecorações. Isso explica o receio que soldados do Exército, nossa última linha de defesa, sejam contaminados pelos vícios que a corrupção pode proporcionar.

Uma das soluções a curto prazo é a contratação de novos policiais para atuação exclusiva nas UPPs. Todavia, é preciso dar garantias, condições e melhores salários a estes profissionais que se arriscam em tempo integral, a partir do momento em que recebem a insígnia ou a farda. Em todos os aspectos, a polícia carioca (e a nacional) precisa ser refundada.

A solução ideal é um pouco mais demorada, mas de resultados perenes e insubstituíveis. Trata-se de humanizar as condições de vida daqueles que moram nas favelas e levar o Estado a essas regiões. Educação de qualidade, saúde, lazer e outros itens essenciais como saneamento básico e prestação de serviços públicos tem que ser entregues a essas comunidades, até mesmo para justificar a existência das palavras cidadão e dignidade.   Embora seja óbvio, importante sempre reiterar que o governo não faz favor algum quando leva condições básicas de vida a uma região, é sua obrigação fazê-lo.

É preciso aproveitar o momento de lua de mel pelo qual os poderes coercitivos do Estado e a sociedade estão passando para tomar medidas de reconstrução, que demonstrem que apesar de estar deitado “eternamente” em berço esplêndido, nosso Estado, ainda que esporadicamente, levanta-se pra mostrar que está acordado.  

E esse esforço deve ser levado à frente para que o País não se perca nas tribulações que os grupos criminosos frequentemente trazem à sociedade.   

Gustavo Longuinhos de Sousa é jornalista, escritor e redator da página www.fatopolitico.zip.net .

 

* Artigo publicado originalmente na página 2 do jornal Correio Popular de Campinas (SP). 

A vitória da máquina

Diversos fatores levam a crer que as eleições do próximo domingo já tem um vencedor. Com um cabo eleitoral que tem mais 80% de aprovação popular, liderança nas pesquisas, forte cooptação de entidades sindicais e movimentos estudantis, e a máquina do governo trabalhando descaradamente a seu favor, Dilma Rousseff dificilmente perde o pleito presidencial do dia 31. A candidatura, engendrada por Lula, e vitaminada pela força e crescimento da economia nacional, deve garantir a petistas e peemedebistas pelo menos mais quatro anos no topo do poder.

 

Aliás, falando em PMDB, alguém sabe por onde anda Michel Temer, nosso provável futuro vice-presidente? Escondido no horário eleitoral e na campanha, Temer é o símbolo maior de que barganhas e conveniências políticas ainda dão o tom do descambamento ideológico, que nivela por baixo, a nossa politicália.

 

Cabe lembrar, porém, que tal prática foi utilizada também pelo tucanato em 1994, quando FHC se aliou ao então PFL (atual DEM) e ganhou o apoio de Antônio Carlos Magalhães. Ou seja, no nosso controverso cenário político, sempre recheado de Erenices, Paulos Preto, mensalões e mensalinhos, o fisiologismo e o congraçamento de apaniguados ainda são as principais matérias-primas da construção de nossos governos.      

O segundo turno já começou

 

 

Muito embora o horário político eleitoral na televisão nem tenha começado e as campanhas ainda estejam engatinhando, o cenário final da sucessão que se avizinha já é conhecido há tempos. A disputa bipolarizada entre tucanos e petistas vai mais uma vez se repetir, como vem acontecendo nos últimos 16 anos. Principalmente depois de Ciro Gomes ter sido rifado pelo PPS e de Marina Silva (PV) padecer de estrutura, apoio e crescimento. Assim, só resta à Dilma e Serra se preparem para o embate final, que acontece em novembro.

A menos que aconteça um fato absolutamente novo, como um escândalo de proporções inimagináveis, a disputa mais uma vez trará à tona o consórcio PT-PSDB, com tudo que isso traz de positivo e negativo. Ou seja, o pensamento “neoliberal fisiológico” que fez o Brasil emergir do mais completo ostracismo até chegar a ser uma das estrelas do BRIC, é a mesma filosofia (ou falta dela) que continua extenuando a população e empresários com impostos de todos os lados e, mantém a nação entre as mais desiguais e corruptas do planeta.

Alianças absolutamente improváveis como a que FHC firmou com Antônio Carlos Magalhães em 1994 ou a união do PT de Lula com o PMDB de Temer, continuarão a fazer parte da nossa avacalhada política. O debate quase futebolístico que nos permeia, continuará centrado nos dois partidos que até então representam o que de mais importante surgiu na política nacional pós-ditadura, o que, porém, ainda é pouco, frente à demanda de problemas sociais, políticos, tributários, institucionais e judiciais que ambos não conseguiram minimizar verdadeiramente. 

Não se negam os grandes avanços obtidos em ambos os governos, como a estabilização da inflação e os programas afirmativos de geração de renda. Todavia, um país com as potencialidades que esta nação congrega, não pode se contentar com líderes que lançam a ética e a moral às favas a cada mudança dos ventos e que acima de tudo, não condenam a corrupção com a veemência devida e lavam as mãos ante o dinheiro público jogado às traças e aos ladrões.

É inadmissível termos que continuar a assistir a pactos como Lula e Sarney fizeram (o primeiro para garantir apoio para o PT nas eleições deste ano e o segundo para não ser defenestrado do seu cargo) ou a conchavos espúrios que garantiram a emenda da reeleição de FHC.

Uma terceira via, com um programa bem estruturado e com pensamento político arrojado, poderia levar o país a um patamar de desenvolvimento bastante superior ao que vemos agora. Uma política tributária justa, programas sociais com vistas à inclusão social e à minoração da violência, combate sério à corrupção, leis mais severas contra criminosos de todas as espécies e apoio a pequenas e médias empresas já seriam um bom começo.     

Embora o clamor por uma nova política - e por novos políticos - seja veladamente entoado por muitos, poucos tem a ousadia de se exibir como partidários de uma alternativa, mesmo porque faltam-nos opções convincentes. E acima de tudo, falta coragem para quebrar paradigmas. 

Por tudo isso, o segundo turno da eleição 2010 já começou. Resta-nos fazer nossa nobre e democrática escolha entre um dos que se aventurarão à disputa. Lembrando que no segundo tempo da partida, é que a escolha vai ser realmente feita. Há tempos, as duas opções já estão à mesa, só nos resta jogar.  

*** Artigo publicado originalmente na página 3 do jornal "Correio Popular", no dia 27 de maio de 2010.   

Gustavo Longuinhos de Sousa é jornalista, assessor de imprensa e redator da página Fato Político (www.fatopolitico.zip.net).

Distrito selvagem

      

Devido ao Arrudagate, muitos dizem que Brasília acaba de chegar ao fundo do poço. Contudo, nos últimos anos, difícil é se lembrar de uma época em que a capital federal esteve ilesa de escândalos, tramóias e corrupção da grossa. Afinal, dentre outros motivos, é lá que fica o nosso honradíssimo Congresso Nacional, que abriga boa parte da nossa classe política.

       

Da ditadura militar a Sarney, de Collor a Renan Calheiros, de privatizações sombrias ao mensalão, de Arruda (congressista) a Arruda (governador). A lista de imbróglios nefastos é tão grande que essas mal traçadas linhas não dariam conta de especificá-las uma a uma. E todas possuem em seu âmago um único cenário ou ponto convergente: o Distrito Federal.

 

A verdade é que a Brasília do coronelismo, mesmo em tempos de democracia, nunca saiu de moda. Os desmandos e a força bruta das oligarquias que desde o início se fizeram presentes, de lá não arredam o pé, como em outras partes do país. A prova disso, é que depois do caos provocado por José Roberto Arruda, adivinhe quem esfrega as mãos, louco pra voltar ao governo nas eleições deste ano: o ex- governador Joaquim Roriz, sob o qual também pousam vários escândalos e denúncias, como não poderia deixar de ser.    

 

O problema, portanto, não está na região geográfica em que a capital se encontra, nem no seu povo, nem na sua construção e nem em uma eventual urucubaca gigantesca. O grande entrave está na sua concepção, enquanto “morada” de homens desonestos e corruptos. Brasília é a cada dia, mais e mais refém de si mesma e dos porcos hábitos, levados pelos políticos que lá aportam. Que me desculpe Lula, mas a verdadeira herança maldita quem recebeu foi Brasília, logo ao nascer, ao ser “consagrada” como o recanto principal da politicália brasileira.

 

O Arrudagate é só mais um acontecimento, que traz às claras a triste realidade da nossa classe de mandatários e chamusca ainda mais a história do país e de sua capital. Além da prisão de Arruda, o que deve nos deixar estarrecidos é a avalanche de fatos que são trazidos neste bojo. Isto porque, com a intervenção federal na capital mais próxima a cada dia, notamos que a rede de corrupção que liga empreiteiros (e seus intermediários) aos políticos está mais viva do que nunca. 

 

Na prancheta de Niemayer e na cabeça de Kubitschek, havia muitos sonhos para a capital, e a maioria deles se transformou em realidade. Todavia, na Brasília das últimas décadas, a visão que se sobressai, ante a quimeras e devaneios, é a do pesadelo da corrupção e do desmando, que insiste em nos trazer sempre à mesma realidade: a crônica da tragédia anunciada.  

 

Gustavo Longuinhos de Sousa é jornalista, assessor de imprensa, escritor e redator da página Fato Político.  

O que nos resta

         A vitória do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016 certamente vai gerar muita discussão. Estejamos preparados para ler e ouvir pelos próximos sete anos, notícias sobre atraso de obras, suspeitas de superfaturamento, licitações irregulares, e todo o blábláblá que você pode imaginar ao pensar sobre uma Olimpíada no Brasil.     

Os que apóiam a escolha da capital fluminense como a organizadora dos Jogos vão entusiasticamente enaltecer as qualidades e belezas naturais da cidade e o planejamento estratégico dos governos municipal, estadual e federal - bem feito, diga-se de passagem - desenhado e apresentado ao COI (Comitê Olímpico Internacional). Do outro lado da corda, os contrários à ideia versarão sobre as vociferantes cifras que abrangem à realização do evento e sobre a violência que assombra cariocas e turistas.

         A bem da verdade, a argumentação de ambos os lados tem fundamentos erigidos em fatos mais do que concretos. Isto porque, se a organização do evento conseguir entregar 90% do que promete, as melhorias para a cidade e para seus cidadãos serão extremamente significativas. Além da construção de uma estrutura esportiva que poderá ser utilizada pela população após os Jogos e das soluções de transporte público e segurança, deve-se aventar que a exposição da marca Rio pode incrementar o turismo na cidade. Comparável, talvez, ao que aconteceu após a Olimpíada de Barcelona 92, que deixou um legado mais do que expressivo para a cidade. Prova disso, é que atualmente Barcelona é a terceira cidade mais visitada de toda a Europa e figura entre as dez mais visitadas do mundo.   

Contudo, dando razão aos que repudiam a escolha do Rio como sede olímpica, o retrospecto político do nosso país é dos piores no que tange à malversação do dinheiro público e construção de obras faraônicas sumariamente abandonadas (vide as obras do Pan 2007 também no Rio de Janeiro). Some-se a isso o fato de que todos os municípios tupiniquins, entre os quais o Rio, carecem de obras de infra-estrutura e moradia e de um sistema de saúde digno. O que depõem fortemente contra uma necessidade inerente aos Jogos, que é a de se gastar toneladas de dinheiro em projetos esportivos em detrimento da construção de uma cidade mais justa socialmente.

A exposição de motivos pró e contra a realização dos Jogos no Rio, poderia prolongar a discussão indefinidamente, tal a quantidade de argumentos e fatos que municiam partidários e contrários ao evento. Todavia, cabe ressaltar que a escolha já foi feita e é irremediável. A realidade nua e crua é que a Olimpíada de 2016 será realizada em nosso território quer queiramos ou não.

O que nos resta é fazer um esforço civilizatório, em prol de uma séria fiscalização acerca dos desmandos políticos que certamente acontecerão. Ou seja, nossa atuação a partir de agora deve ser voltada para o acompanhamento de tudo o que estar por vir, no que diz respeito a empreendimentos custeados com dinheiro público.  Exemplo fiel disso, é que no Rio de Janeiro, já existem ONGs que prometem lançar  blogs para fiscalizar e denunciar quaisquer atropelos que possam surgir.

A gritaria contra a realização de Rio 2016 agora é inócua, defasada e sem objetividade. A inevitabilidade dos acontecimentos futuros ganha força quando contrastada com a retórica derrotista e saudosista de algo que já perdeu o sentido.

Só nos resta fiscalizar o que nossos nobres políticos farão com a oportunidade de transformação destinada à cidade maravilhosa e torcer para que o caminhão de dinheiro público que será derramado nos próximos anos, atenda a fins sociais em um futuro bem próximo.

Mesmo porque, muito mais do que atender com excelência ao esporte de alto rendimento, a Olimpíada deve ser o motor para transformações profundas na sociedade. E isso significa deixar um espólio de construções esportivas/educativas que podem tirar das mãos sujas do tráfico e da violência, diversas vidas, por meio do esporte, lazer, educação e obras voltadas para a população.     

 

 

O fator Marina Silva

            Um fato novo pode tirar dos confins do marasmo, o debate sobre as eleições presidenciais de 2010. A possível candidatura da senadora Marina Silva (PT-AC) pelo Partido Verde é um elemento que deve movimentar muitas peças do nosso inconsistente tabuleiro eleitoral. Tanto assim, que a preocupação já começa a bater à porta de Lula, Dilma e de toda a trupe petista.

Não que Marina já possa ser considerada forte candidata à vitória (certamente neste momento não o é, principalmente pelo pouco tempo de horário eleitoral na TV que será destinado ao PV), mas sua iminente pré-candidatura traz consigo uma alternativa factível à mórbida bipolaridade PT-PSBD. Principalmente porque eleva a qualidade do discurso eleitoral, já que entre outros pontos, traz à tona, seriamente, o tema ambiental; e de carona, ressuscita o candidato Ciro Gomes, que apesar de ser cotado por Lula para a disputa do governo estadual paulista, quer mesmo é se aventurar como presidenciável.

A falta de propostas de uma oposição desnutrida e um governo com alguns acertos inegáveis, mas com muitas falhas degradantes, exigem uma terceira via calcada em novas e diversificadas ideias.

Mas nem tudo são flores no reino de Marina. É importante lembrar que Zequinha Sarney (PV-MA), filho do Senador José Sarney, é o líder da bancada verde na Câmara dos Deputados. Essa é uma mácula contra a qual Marina não terá como se debelar, pois uma das figuras mais importantes do seu provável futuro partido é filho de quem é ...e nem é preciso repetir a miríade de escândalos que pesam sobre os Sarney.  

Para Dilma, a entrada da ex-ministra do Meio Ambiente no jogo da sucessão presidencial não poderia ser mais desanimadora. Além de ter que conviver diariamente com o ridículo equívoco (?) que recentemente foi descoberto em seu currículo (a ministra não apresentou teses, por este motivo NÃO é Mestre e nem Doutora pela Unicamp, ao contrário do que estava especificado em seu currículo publicado no site da plataforma Lattes) a chefe da Casa Civil também se vê acuada pelas acusações de Lina Vieira, ex-secretária da Receita Federal, que afirma que Dilma pediu a ela que “agilizasse” as investigações sobre os negócios da família Sarney. Em ambos os casos, a imagem da “mãe do PAC” foi arranhada.

E agora o fator Marina promete roubar preciosos votos dos governistas. Embora as eleições ainda estejam distantes, esses episódios certamente serão lembrados pelos adversários da ministra. O que poderá enfraquecer sua campanha, apesar do esforço que Lula empenhará para eleger a atual chefe da Casa Civil.   

Quem deve estar rindo à toa disso tudo, é o tucano José Serra. Apesar da oposição ter dado sinais irrefutáveis da mais pura falta de direção nesses últimos anos, estes fatos recentes devem turbinar o ânimo dos serristas e congêneres.

Marina pode formar chapa com o também dissidente do PT, senador Cristovam Buarque (PDT-DF), o que a bem da verdade, enriqueceria e muito, a nossa pobre discussão política. Contudo, como nada está confirmado, precisamos aguardar as próximas jogadas da cena eleitoral e torcer que a campanha de 2010 não se resuma ao mais do mesmo de petistas x tucanos. 

 

Gustavo Longuinhos de Sousa, é escritor e jornalista.

Pela extinção do Senado

 

A crise das Instituições nacionais parece não ter fim. A cada dia, surgem novos escândalos que deterioram ainda mais a já enlameada feição de nossa estrutura política. Atualmente, graças a uma miríade de ilicitudes, o Senado Federal é o grande foco das atenções. A descoberta das contas bancárias clandestinas e dos Atos Secretos somente corroboram com a tese de que esta casa legislativa se transformou em um enorme elefante branco, ineficiente, perdulário e imoral.

Diante da concretude dos fatos e da estrutura enferrujada e corruptível que nos cerca, algumas questões tornam-se inevitáveis. Ainda há sentido em manter o sistema bicameral (Câmara dos Deputados e Senado Federal), apesar do estado pueril em que nosso Poder Legislativo se encontra? Não seria melhor se somente a Câmara dos Deputados nos representasse em âmbito federal?

De antemão é interessante afirmar que tais questionamentos se moldam perfeitamente nos parâmetros do Estado Democrático de Direito, já que a manutenção de somente uma casa legislativa já assegura ao cidadão representatividade política. Cabe também lembrar que a Constituição Federal confere atribuições diferentes às casas: os senadores têm a missão de representar os Estados pelos quais foram eleitos; os deputados representam o povo. Contudo, na prática, o papel fundamental dos congressistas é o mesmo, ou seja, legislar. Isso sem falar que eventuais atribuições exclusivas dos senadores, como por exemplo, escolha de ministros do STF ou aprovação de operações financeiras da União, podem facilmente ser redirecionadas aos deputados federais.

Um problema que se identifica facilmente no sistema bicameral é que ambas as casas precisam discutir e votar sobre uma determinada matéria, para que a mesma seja aprovada. Assim, somente depois dessa dupla análise é que o projeto pode se transformar em lei. Isto representa demora dobrada para que a legislação entre em vigor. Essa burocracia emperra ainda mais a já lenta produção legislativa tupiniquim. 

           Vale também ressaltar que o Senado federal manipula um orçamento de aproximadamente R$ 3 bilhões ao ano, para manter sua estrutura. Um valor absurdamente elevado, que deixa nossos congressistas entre os que mais custam aos cofres públicos, em comparação com todos os países do mundo. Com a extinção do Senado, esses bilhões poderiam se redirecionados para obras e projetos que realmente atendessem à população.

         Os efeitos que uma mudança como essa proporcionaria, seriam rapidamente sentidos pela população. Além de agilizar o trâmite do processo legislativo, traria grande economia aos cofres públicos. Além dessas vantagens, seria fechada uma torneira da qual não param de vazar inacreditáveis irregularidades.  

          Teoricamente, o Senado brasileiro deveria abarcar em suas filas, políticos de grande experiência na vida pública e de imaculada carreira política. Todavia, o que vemos são políticos do “calibre” de Fernando Collor, José Sarney e Renan Calheiros.

           Deveria também funcionar como uma espécie de revisora das matérias votadas na Câmara dos deputados. Há tempos, essa função se perdeu no tempo e espaço.

          A bem da verdade, o desaparecimento do Senado não faria diferença alguma no processo legislativo. Todavia, essa hipótese é plenamente rejeitada pelos nossos nobres políticos, pois se de fato isso acontecesse, seria uma opção a menos para os vampiros do Poder sugarem o dinheiro da população.     

As últimas de Luiz Inácio

         Enquanto os cenários do cotidiano se misturam ao mórbido caos contemporâneo, daqui, do alto da insignificância de nossa mais sincera indignação, ouvimos mais uma vez, o líder mais popular do planeta, metralhar nossos ouvidos com suas inimagináveis declarações. No ápice de sua inadvertida sapiência, há dias, Lula vem nos brindando com pronunciamentos recheados do mais impuro saber político, filosófico e ético.

         Semana passada, nosso Presidente estarreceu o mundo, ao declarar de forma clara e assertiva, que as eleições no Irã, transcorreram de forma leal, ou seja, sem fraudes. Comparou vulgarmente, diga-se de passagem, as reclamações do candidato derrotado, Mir Hossein Mousavi, a choro de torcedor de futebol, ao dizer que o protesto nada mais era que grito de perdedor. Pela ótica do Presidente, deveríamos todos – inclusive os iranianos – saudar sem questionamentos a vitória do conservador Ahmadinejad. 

Contudo, horas depois do resultado oficial, as ruas de Teerã foram invadidas pelo povo e grande parte da população ainda hoje protesta contra a mais clara fraude eleitoral dos últimos anos. Até mesmo o Conselho dos Guardiões (composto por religiosos e juristas) já assumiu que houve irregularidades. Infelizmente, um banho de sangue está sendo jorrado em Teerã, já que a truculência e as armas de fogo estão calando o grito desesperado dos descontentes e dos partidários do candidato derrotado. 

              Lula, ao se posicionar claramente a favor do conservadorismo e da violência de Ahmadinejad, mostrou que por vezes, o silêncio pode ser sua melhor resposta. A inacreditável declaração denotou falta de tato, bom senso e precipitação absolutamente injustificável. Mesmo porque, não faz nenhum sentido virar cabo eleitoral de Ahmadinejad.                   

Por aqui, a chuva de denúncias que recaem sobre o Senado Federal, faz a língua de Luiz Inácio coçar, e aí, já viu né ...Lula deu outra declaração aterrorizante. Ao tentar defender José Sarney, do indefensável escândalo de nomeações por meio dos Atos Secretos, o Presidente disse que um homem com a história de Sarney não poderia ser tratado como um comum.

Sim, façamos justiça a Lula, Sarney realmente não é um homem comum. É sim, um oligarca, um coronel de bengala, mandatário maior de servos famintos e sem rumo. Afinal, ele e sua família mandam e desmandam há mais de 40 anos no Maranhão, um dos Estados mais miseráveis e esquecidos do país. Ferrenho opositor das Diretas Já e simpatizante da horripilante ditadura militar, o nobre Sarney, por pura maldade do destino, transformou-se em nosso primeiro presidente civil, após a ditadura. Como membro do Congresso, caracterizou-se por utilizar o cabide do Poder Público para agraciar apadrinhados, sobrinhos, cunhadas, primos e mordomos e distribuir como sendo sua (e de acordo com suas "necessidades"),  a riqueza acumulada que sai dos pobres bolsos da grande maioria dos milhões de trabalhadores e contribuintes brasileiros.

 É óbvio que Lula se apóia no famigerado PMDB para tentar eleger Dilma e para isso ele blindaria até o bandido da luz vermelha. Por este motivo, tenta defender o velho Sarney. Contudo, a lição de Lula mais uma vez é: dane-se a ética, uma banana para a moralidade, um viva para os meus interesses.  

A mais recente pérola de nosso líder maior foi dita na última segunda. Sem nenhum pudor, ele declarou que a imprensa só dá atenção a desgraças, referindo-se aos Atos Secretos do Senado. Ora, trata-se de assunto da maior importância para todos, já que o Congresso Nacional tem (ou pelo menos teria) que representar os interesses do povo.  

A mensagem do Presidente é clara. Sejamos todos alienados políticos, esqueçamo-nos de Atos Secretos, mensalões, propinas e desvios de verbas. Vamos soltar rojões pelos anos de Lula no poder e esquecer que moramos no país da impunidade, da amoralidade política e da desfaçatez moral. 

 

 

 

 

     

   

 

Quiproquó midiático

            Foi-se o tempo em que uma Comissão Parlamentar de Inquérito era identificada como luta contra os usurpadores da Nação. Em remotas épocas de outrora, a instalação de uma CPI criava no imaginário popular a idéia de que enfim, a justiça seria feita. Milhares de páginas recheavam gorduchos relatórios que continham denúncias cabeludas contra fulanos e beltranos. As investigações eram – ou pelo menos pareciam ser – dotadas de grande seriedade, tanto que as ilações arquitetadas pelos parlamentares-investigadores muitas vezes demonstravam que os suspeitos estavam de fato, enlameados no pântano abissal dos nossos podres poderes.

Contudo, como não moramos na Finlândia e sim no Império da Impunidade, a credibilidade das Comissões foi gradativamente perdendo pontos. Isto porque, as investigações freqüentemente davam com os burros n’água, denúncias e escândalos eram abafados ou jogados às traças e a tradicional pizza brasiliana, mais uma vez era servida à incrédula população.

            Pois bem, ao longo do tempo, descobriu-se que as CPIs não traziam muitos resultados práticos. Tal qual o ilustre deputado federal Sérgio Moraes (PTB-RS), os denunciados se lixavam para a opinião pública. Apesar do mar de acusações, as punições minguavam.

 Por outro lado, verificou-se que a investigação parlamentar proporcionava expressiva visibilidade tanto aos acusadores quanto aos acusados.

Eureca! É tudo que os políticos precisam. Afinal, eles jogam pedra na vidraça alheia e ainda se sobressaem como os paladinos do Estado. Até porque, assim que uma CPI é instaurada, o circo todo é armado e o propósito politiqueiro é plenamente alcançado. Ávidas câmeras de TV acendem suas luzinhas vermelhas em busca de denunciantes, denunciados, furos e declarações apimentadas. Repórteres de todos os cantos se espremem para entrevistar, investigar com lupa e descobrir novas fontes. Afoitos e desesperados por escândalos, chefes de redação telefonam loucamente para seus comandados e se contorcem à espera de notícias bombásticas, capazes de alimentar fantásticas manchetes.          

             

                                                            CPI da Petrobrás

 

            A oposição, liderada por tucanos e demos, tenta agora fazer com que algum escândalo submerso em águas profundas, venha à tona graças a CPI da Petrobrás. Assim, buscam desacreditar a inacreditável popularidade de Lula. Missão difícil, diga-se de passagem, ou alguém já se esqueceu da CPI dos Correios e de todas as acusações contra o Presidente e a cúpula petista? Mesmo depois do Procurador Geral da República ter acusado o PT de ter formado uma organização criminosa no poder, a popularidade de Luís Inácio não sofreu absolutamente nenhum abalo.

Especificamente, no caso da Petrobrás, a criação e a manutenção da CPI é puramente eleitoreira. É mais uma tentativa de defenestrar o governo. Não que uma investigação nas contas da Petrobrás não seja necessária, certamente é, porém esta não é uma prioridade política no momento atual do país. Parafraseando Clóvis Rossi (Folha de São Paulo), esta CPI não está nem entre as 50 coisas mais importantes a se fazer neste momento. Isso sem falar que outros órgãos podem fazer esta averiguação de modo muito mais efetivo e conclusivo.

            O mais desalentador é saber que as pessoas que agora evocam motivos éticos e nacionalistas para instaurar a CPI da Petrobrás (leia-se PSDB e DEM) são exatamente as mesmas que em 2001, mataram e enterraram a CPI da corrupção, que iria investigar possíveis desmandos da era FHC. Como sempre, na política do país da impunidade, o que importa são os interesses politiqueiros/fisiológicos. Políticos falando em razões éticas, moralidade, militância em prol do bem comum? Conta outra ... 

            A única certeza disso tudo é que o grande vitorioso dessa história será o PMDB, que como sempre faz vai vender seu apoio ao governo a peso de ouro.      

 

 

 

 

           

 

 

             

 

A batalha já começou

     Visando as eleições presidenciais de 2010, as principais lideranças políticas do País se movimentam freneticamente para definir nomes e alianças. Pelo lado dos governistas, o candidato já está escolhido, a toda-poderosa Dilma Rousseff é quem vai tentar conduzir o PT a mais quatro anos de poder. Chancelada por Lula, a mãe do PAC só não será candidata se um imprevisto gigantesco acontecer. Tanto que nosso presidente leva a ministra a tiracolo aonde quer que vá. O esforço desenfreado para transformá-la em figura conhecida para toda a população começou no ano passado. Eventos, inaugurações, solenidades... Lula estará presente? Então basta dar uma olhadinha para os lados para encontrar Dilma. 
     A aposta do Presidente reside basicamente em dois fatores: a falta de nomes que inspirem confiança em um PT ainda chamuscado pelo episódio mensalão e principalmente, à perspicácia de Lula, que notou que a mídia e mesmo os adversários vinham destacando a atuação da ministra. Como ninguém em sã consciência no Partido dos Trabalhadores tem coragem de contradizer as palavras do seu maior líder, Dilma já é uma presidenciável.
     O presidente dizer em público que tem preferência por este ou aquele candidato para sua sucessão não é o problema. O entrave deste caso é o fato da dupla Lula e Dilma ter supostamente iniciado a campanha com antecedência de quase um ano e meio e aí vem a pergunta inevitável: a máquina pública estaria beneficiando o candidato governista? A oposição acredita que sim, tanto que DEM e PSDB já recorreram ao Supremo Tribunal Eleitoral para interromper o que chamam de campanha antecipada.  
Obviamente, o lado governista se defende e diz que democratas e tucanos querem interditar o governo.
O que está claro é que a ministra chefe da Casa Civil, de fato, beneficia-se — e muito — de suas aparições ao lado do Presidente. Sua imagem está cada vez mais vinculada a de Lula e sua popularidade tende a crescer progressivamente. Ser visto como aliado de Lula no Nordeste, por exemplo, é quase garantia de votos nesta região. E é só dar uma olhada no índice de aprovação do atual governo (mais de 80%) para perceber que em qualquer região do País, estar ao lado do Presidente é meio caminho andado para ganhar votos.
     Os elogios públicos que Lula referenda à ministra-candidata nos eventos relacionados ao PAC sem dúvida alguma, são parte do plano petista de permanecer no poder por mais alguns anos. Resta saber se a estratégia vai lograr êxito no pleito de 2010.
     Do outro lado da corda, a oposição se digladia para definir nomes. Embora José Serra seja o grande favorito para emplacar sua candidatura pela chapa PSDB e DEM, Aécio Neves ainda corre por fora para tentar virar o jogo. O governador de Minas Gerais insiste que sejam realizadas prévias eleitorais em seu partido (PSDB), porém os caciques tucanos não parecem dispostos a se arriscar como fizeram em 2006 com Geraldo Alckmin. Isto porque Aécio é ainda um político sem renome nacional. Seu alto índice de aprovação em Minas está longe de lhe garantir popularidade em outras regiões, principalmente no Nordeste, Norte e Centro-Oeste.
     Contudo, Aécio sustenta uma outra esperança para tentar emplacar sua candidatura. Para isso, seu flerte com o PMDB teria que virar namoro, o que dificilmente acontecerá. Mesmo porque, nesta hipótese, o PMDB abandonaria o barco lulista para se aventurar em uma candidatura própria, com o governador encabeçando a chapa. A realidade é que dificilmente os peemedebistas de plantão trocarão as regalias e mimos oferecidos pelo governo por uma simples aventura.
     É pouco provável que algum outro nome se estabeleça com força para disputar a presidência. Ciro Gomes pode ser a surpresa, porém poucos acreditam que ele tenha envergadura política suficiente para chegar ao segundo turno.
Assim, o grande embate das próximas eleições presidenciais, deve ser polarizado novamente entre tucanos e petistas. De um lado José Serra, do outro Dilma Rousseff.
     Levando-se em consideração que ainda falta mais de um ano e meio para o pleito, é extremamente difícil apontar um favorito neste momento. Mesmo porque, os efeitos da crise internacional ainda podem fazer mais vítimas. Além disso, não podemos menosprezar a voraz capacidade tupiniquim de criar escândalos políticos. Se um deles acontecer, o que não é difícil, muita coisa pode respingar nos presidenciáveis. E aí, tudo pode mudar novamente, novos personagens podem entrar em cena e mais um capítulo da nossa atribulada história política terá sequência.

Os reis do Brasil

           Com seus paletós sempre muito bem abotoados e suas gravatas reluzentes, os reis do Brasil continuam felizes e faceiros em sua épica cruzada em prol de si mesmos. Quase sempre verborrágicos diante das câmeras e muito bem nutridos pelos seus gordíssimos salários e verbas adicionais, os representantes do povo tem três missões prioritárias a cumprir: enriquecer; salvar o pescoço dos nobres colegas e varrer seus resíduos fétidos para debaixo do tapete. Depois, só depois, se sobrar algum tempinho e se não houver nada melhor para fazer, uma tímida esmola compensatória é distribuída para aqueles que os elegeram.

Se por um lado, depois do pleito a população transforma-se em massa desvalida e não partícipe do Poder, pelo outro, os empossados são elevados a uma esfera social diferenciada, na qual força e prestígio são mimos básicos. Altos salários e regalias palacianas, como auxílio-moradia e verba indenizatória fazem parte, por exemplo, do pacote que senadores e deputados federais têm à sua espera.  

Assim, ciclo após ciclo, a inabalável casta política mostra todo o seu poder de fogo para a incrédula população. Salvo raras exceções, os políticos parecem seguir uma cartilha que tem como palavra-chave a amoralidade. Isso sem mencionar que a impunidade é o salvo-conduto de corruptos, corruptores e simpatizantes. Só para citar um exemplo recente, os acusados pelo mensalão poderão ter seus processos arquivados pelo efeito da prescrição. Ou seja, tamanha demora em se julgar o caso em definitivo, pode transformar todas as acusações em poeira.     

O mais desgraçadamente irônico disso tudo é que o corporativismo, o fisiologismo e a corrupção se perpetuam no Brasil como se fossem naturais e não como anomalias do sistema. Em um país com uma sangria tão grande em áreas fundamentais como educação, segurança e saúde pública, seria de se esperar empenho total e irrestrito de todos, ou de pelo menos da grande maioria dos eleitos pelo povo. O foco deveria ser o bem-estar social e a melhoria contínua das condições de vida da população. Contudo, o conto de fadas acaba quando chega o dia da posse. O encanto é quebrado, o príncipe vira sapo e a esperança se transforma em maldição que dura no mínimo quatro anos. E não adianta bater três vezes na madeira ou apelar para o pé de coelho. Depois do pleito, só nos resta assistir incólumes ao espetáculo atroz da corrupção, malversação do dinheiro público e verdades omitidas.  

Todavia, nada se compara ao corporativismo exibido por enorme parcela dos nossos eleitos. Constantemente, escândalos são abafados e com o tempo, transformam-se em passado distante e inacessível. Vejamos o caso que assombrou o país há pouco mais de um mês, o castelogate.

Edmar Moreira (DEM-MG) tomou chá de sumiço da mídia e do Congresso. Quase ninguém mais fala sobre o caso e dentro de alguns dias tudo cairá em doce esquecimento. A verdade nua e crua é que o investigado não será punido e tudo vai continuar exatamente como está. Hábeis políticos com falatório rebuscado e garganta afiada entrarão em ação e a maior especialidade do país (que me desculpem os italianos) irá novamente ao forno: a famosa pizza tupiniquim.

Amanhã ou depois, novos escândalos surgirão, a opinião pública ficará atônita, a mídia vai gritar e no final, a impunidade reinará. A falta de ética de sempre, recheada com perpétuas doses de amoralidade e leves toques de cinismo. E daqui a alguns anos, quando essas mesmas reclamações tomarem corpo, no andar de cima, os reis do Brasil tomarão champagne para comemorar mais verbas desviadas, mais propinas pagas e o mais do mesmo de sempre.     

 

Mediocridade em forma de Poder

         Os ventos turvos que continuam a soprar sob o enevoado Poder Público degradam de forma contínua, a já mortificada relação Política x Moral. Exemplos não faltam para confirmar esta insólita verdade. Edmar Moreira (DEM-MG), protagonista do “castelogate” é a estrela da vez da melancólica novela política tupiniquim. Antes dele, uma miríade de acontecimentos envolvendo acusações de corrupção e fisiologismo já corroboravam com a tese de que a amoralidade é a regra de conduta da maior parte dos representantes da população.      

         Faz parte do jogo democrático - e é fundamental- que seja delegado poder a alguns, para que estes se tornem representantes do povo na defesa dos interesses do bem comum. Entretanto, a deturpação deste princípio fez com que a política se transformasse em trampolim para a ganância, riqueza ilícita e acomodação. O que se vê atualmente é que o ideal maior da democracia participativa se perdeu no mar de lama que infesta os Poderes da República.

         Pródigo em dar péssimos exemplos para a sociedade, o Congresso Nacional é só mais uma, entre várias instituições, que precisam renascer dos escombros em que se encontram. Todavia, a tarefa é incrivelmente árdua. O fim da verba indenizatória mensal e cumulativa de R$ 15 mil (para cada um dos 513 deputados federais e 81 senadores) ou pelo menos a apresentação de notas fiscais dos gastos feitos com o dinheiro público, já seriam um bom começo.

         Dos anões do orçamento, passando pelo mensalinho da reeleição de FHC ao mensalão pró-Lula, muitos escândalos aconteceram e pouca coisa mudou. O acobertamento, primogênito do corporativismo e irmão mais velho do fisiologismo, continua a ser parte integrante do Congresso Nacional. Que o diga o quase Corregedor da Câmara dos deputados, Edmar Moreira (DEM-MG). Eleito por seus pares – graças ao escandâlo do castelo renunciou à Corregedoria - declarou em alto e bom som que sob sua batuta a Corregedoria não deveria investigar nada nem ninguém.

Na verdade, o deputado mineiro queria lembrar a todos, às claras, o que na maioria das vezes acontece, às escuras. Ou seja, muitos dos processos, senão a maioria são parte de um jogo de cena bem conhecido da nossa política, eles fazem que investigam, o povo finge que acompanha, no fim tudo é arquivado, ninguém é punido e ufa ...cadê o próximo escândalo ?

Falando nisso, alguém viu por aí o Paulinho da Força? Sobre o imbróglio Alstom e políticos tucanos ninguém mais fala, se é que algum dia alguém falou seriamente sobre isso. Agora, a prova final: quem conseguir responder qual político foi seriamente punido nas CPIs dos Sanguessugas, Correios e Bingos ganha um prêmio.

Em tempo, enquanto encenações petistas, peemedebistas e tucanas permeiam o noticiário político, o novo corregedor da Câmara foi escolhido: ACM Neto (DEM-BA). Que Deus tenha piedade de nós.           

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